segunda-feira, 11 de abril de 2011

Quem será o próximo Ídolo do Brasil? Boa pergunta...



Por Pedro Junior

Teve início recentemente mais uma versão de Ídolos na rede Record, com apresentação de Rodrigo Faro, e nova composição do corpo de jurados, que agora conta com Rick Bonadio e Luiza Possi. O programa, que já foi atração na emissora de Silvio Santos, é inspirado no estadunidense American Idol, que está, nesse momento, em sua fase final e apresentou candidatos muito bons.

Falo sobre esse programa apenas para fazer constar a imensa diferença entre os dois programas que consegui captar nos momentos em que me dispus a assisti-los (que, aliás, não foram poucos). Registro aqui a minha imensa reserva no que diz respeito a qualquer tipo de "hegemonização", principalmente cultural e particularmente vinda dos Estados Unidos. Entretanto a diferença nos "talentos" em cada programa é gritante.

O Ídolos  estadunidense tem apresentado performances inesquecíveis de seus candidatos, que possuem indiscutível talento, e certa pluralidade de estilos. Provavelmente o que leva tantos artistas a lutar por um lugar na competição é o fato de muitos dos vencedores de edições anteriores term se tornado "sucesso" na indústria musical estadunidense.

No Brasil, o público parece não dar tanto valor a artistas "fabricados" pela mídia. Senão vejamos. O que aconteceu  com os artistas que venceram o extinto programa global caça-talentos Fama? O que dizer dos outros "Ídolos" do Brasil, vencedores das edições da Record e SBT? Rouge? Bro'z? Alguém se lembra ao menos de seus nomes? Nada né... Exceto pelos cinco minutos de fama que a exposição televisiva garante, não há nenhuma outra garantia de sucesso. Pelo contrário, parece haver uma espécie de maldição anti-vencedores-de-programas-caça-talentos. Isso talvez explique a quantidade de candidatos aprovados nessa primeira fase que considero no máximo comuns. Bem comuns. Realmente decepcionante.

Outro aspecto a se considerar é a apresentação de Rodrigo Faro, nova "estrela" da Record que vem ganhando bastante espaço na emissora depois que passou a apresentar o programa de sábados "Melhor do Brasil". Contudo, na apresentação de Ídolos, sua atuação tem sido no mínimo muito chata. Com quadros em que exercita um tipo de humor duvidoso, cansativo, repetitivo e forçado, a atração fica muito a desejar. As tais atrações toscas, que geralmente são o principal chamariz de audiência, tem sido insossas. Até agora o programa não deixou "gosto de quero mais" nos telespectadores, e pode ser um retumbante fracasso.

sábado, 9 de abril de 2011

Cerca de 20 palestinos morrem na pior ofensiva israelense em dois anos



Cerca de 20 palestinos morreram e mais de 50 ficaram feridos desde o início da pior ofensiva israelense em Gaza desde que há dois anos Israel deu por concluída a operação militar "Chumbo Fundido".
A escalada começou na quinta-feira (07/04), quando um foguete lançado de Gaza atingiu um ônibus escolar israelense e feriu um menor e o motorista, e desde então a onda de violência entre ambas as partes prossegue de maneira ininterrupta.
A série de agressões e represálias disparou neste sábado (09/04) com um ataque aéreo israelense no sul de Gaza que matou um comandante e dois milicianos do braço armado do Hamas, que ao longo da manhã respondeu intensificando o lançamento de foguetes contra Israel.
Segundo fontes militares israelenses, dois foguetes Grad lançados de Gaza caíram ao meio-dia do horário local na cidade israelense de Ofakim, enquanto mais de 20 morteiros atingiram os arredores de Eshkol, ambas as localidades situadas em áreas de fronteira com a faixa palestina. 
Enquanto isso, o sistema de defesa antimíssil "Cúpula de Ferro", que Israel posicionou na região no final de março, interceptava vários foguetes dirigidos contra a cidade de Be'er Sheva, a 60 quilômetros de Gaza e capital do sul israelense, onde o pânico começa a se espalhar.
De acordo com a imprensa local, centenas de milhares de moradores na região utilizaram nas últimas horas os refúgios para se proteger do lançamento dos projéteis, que não causaram vítimas.
Após o ataque contra o automóvel em que viajavam o comandante Abu Snima e dois milicianos das Brigadas Izz al-Din Al Qassam, braço armado do movimento islâmico Hamas, o porta-voz dos serviços médicos do Hamas, Adham Abu Selmeya, cifrou em 18 o número de mortos em Gaza desde o início da ofensiva israelense.
Segundo Selmeya, 11 mortos pertenciam a forças do Hamas e sete eram civis, que são maioria entre as dezenas de feridos.
O ataque contra Abu Snima e seus acompanhantes teve como cenário a cidade de Rafah e aconteceu depois que, de acordo com fontes militares israelenses, dezenas de foguetes lançados de Gaza atingiram o território israelense durante a noite passada.
Ofensiva
A atual onda de violência é a mais agressiva desde o fim da operação militar israelense "Chumbo Fundido" - que tirou a vida de 1.400 palestinos, em sua maioria civis, e 13 israelenses -, há dois anos.
O Hamas e os grupos armados de Gaza declararam na quinta-feira à noite um cessar-fogo sobre o qual Israel afirma não ter tomado conhecimento, e a ANP (Autoridade Nacional Palestina) fez na sexta-feira (08/04) um apelo à cessação das hostilidades, que foi ignorado.
Nabil Shaath, assessor do presidente palestino, Mahmoud Abbas, reiterou neste sábado o chamado à calma e anunciou que caso prossigam as tensões a ANP pedirá uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU para conter a violência.
Além disso, o primeiro-ministro do governo do Hamas em Gaza, Ismail Haniyeh, pediu nesta manhã a Israel que detenha os ataques.
Após responsabilizar o Hamas pelo ataque contra o ônibus escolar, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, advertiu na quinta-feira, no início da ofensiva militar israelense, que o movimento palestino tinha cruzado "todas as linhas vermelhas".
O chefe do governo de Israel declarou que "quem quiser ferir e matar crianças deve saber que esse sangue pesará sobre si". 

Os fatos respondem por si



Não consigo tirar da cabeça o pastor calvinista aqui de Natal que teimou em afirmar a mim que não existe homofobia ou crimes de ódio contra homossexuais no Brasil.  Contei essa história aqui e aqui. Alguém que tenta atropelar os fatos para confirmar suas posições ideológico-teolígicas não deveria merecer tanta atenção. Mas ele é um líder evangélico conhecido na cidade e um dos pastores de uma igreja razoavelmente numerosa por aqui.
Enfim. Na mesma semana em que escrevo sobre ele, pelo menos dois casos – sem contar as manifestações pró-Bolsonaro de hoje em São Paulo – revelam o peso da homofobia no país.
O primeiro caso, relatei aqui: uma fazendeiro, em Goiás, matou ao lado de dois filhos a adolescente que namorava sua filha. O crime da moça era ser lésbica.
Ontem, outro crime horrendo, dessa vez registrado em vídeo, em Jaru, Rondônia. O rapaz de 17 anos é espancado por seis homens incentivados por uma mulher. O que ele fez para ser chamado de “safado” na gravação e ser espancado brutalmente? Ser gay. Você pode ler sobre o crime aqui e ver o vídeoaqui.
A insanidade de alguém que, por não concordar com o PLC 122, afirma não haver crimes cometidos por homofobia no Brasil se assemelha a quem diz que não há racismo por aqui. As ideias facistas que têm circulado com força, desde, especialmente, as eleições do ano passado, são perigosas para o nosso pleno convívio social. “Direitos humanos para humanos direitos”, “Bandido bom é bandido morto” e as teses contra homossexuais são espantosamente virulentas e, caso ganhem ainda mais espaço, terminarão por nos fazer sucumbir como civilização.
Ontem mesmo recebi mais um e-mail desse pastor. O presbiterianismo no Brasil costuma ter um forte discurso anti-católico, mas para espalhar suas asneiras não deve haver problemas em citar um católico conservador. O eleito desta vez foi o ministro da família do Vaticano, Ennio Antonelli, que afirmou uma teoria da conspiração global para fazer de metade da população global homossexuais em 20 anos.
A imbecilidade dessas ideias é tão descabida que o sujeito não percebe que não consegue fazer de um gay heterossexual: por que acha que o oposto poderia acontecer? Por que acha que alguém se tornaria homossexual sob influência de uma conspiração, ao mesmo tempo em que procura transparecer que acredita que a orientação sexual é algo da individualidade do sujeito? Porque, na verdade, não têm fundamento para afirmar suas ideias. São perdidos em busca de um discurso.
Sugiro que possam encontrar esse discurso na cruz. Querem crucificar os outros. O nosso Senhor esteve naquela cruz pelos desprezados, humilhados, explorados. Pelos que não eram. Por mim, hetero. Por Madalena, que tinha sete demônios. Pela adúltera, pelo publicano. Por que tem gente que teme em achar que Jesus quer ver os homossexuais espancados, mortos, julgados e condenados, como Ele mesmo foi? E por que defendem, com vieses cristãos de discurso e teologia, posições tão absurdas quanto as que dizem não haver homofobia em nosso país?

Militares fazem abaixo-assinado para tirar Amor e Revolução do ar


Por Pedro Júnior

A novela "Amor e Revolução" estreou na última segunda-feira, no SBT, e já rende polêmica. A trama da novela gira em torno de um período que, particularmente, considero NEGRO na história do Brasil: A ditadura militar. Para aqueles que já tem alguma familiaridade com o tema, os diálogos da novela soam um pouco forçados, pois em geral são demasiadamente pedagógicos. Entretanto, tal medida parece ser necessária em razão de grande parte do povo brasileiro não ter a exata noção do que representou esse período para o país, e tem a virtude de suscitar na sociedade discussões a respeito do que ocorreu. Momento oportuno para a transmissão da novela, com a instauração da Comissão da Verdade no Congresso Nacional para apurar o que ocorreu durante a Ditadura Civil-Militar (aqui vale a ressalva, pois os militares não agiram sem a anuência de parte da sociedade civil da década de 60, que não somente apoiaram como financiaram o golpe de 64).

Pois bem, agora militares fazem abaixo-assinado para tirar Amor e Revolução do ar. Reproduzo abaixo matéria a respeito do tema juntamente com o abaixo-assinado propriamente dito.

Do Terra
Estreia de 'Amor e Revolução' rende boa audiência ao SBT06 de abril de 2011 • 14h15 • atualizado às 14h36

" A estreia da novela Amor e Revolução, no SBT, na noite de terça-feira (5), parece ter dado um novo fôlego à audiência da ala de dramaturgia na emissora. A trama, que tem como mote o período da ditadura militar,  rendeu média de 7 pontos com picos de 9, ficando em terceiro lugar, atrás da Globo e Record. Comparada às novelas que antecederam Amor e Revolução, o resultado pode ser considerado bom para o começo, tendo em vista o horário que foi ao ar, às 22h30 "
Ao mesmo no tempo, o site www.militar.com.br faz uma convocação para um abaixo assinado contra a novela, exigindo " providencias em defesa da normalidade constitucional "
LEIA E SE CONCORDAR COM O AUTOR PARTICIPE ASSINANDO.
CERTIFIQUE-SE QUE O EMAIL DA AUTORIDADE/INSTITUIÇÃO DESTINATÁRIA NÃO É FRAUDULENTO, POIS SEUS DADOS SERÃO ENVIADOS PARA ESSE EMAIL. DENUNCIEQUALQUER IRREGULARIDADE.
 TEXTO DO ABAIXO-ASSINADO:
TEXTO DO ABAIXO-ASSINADO: DIANTE DE O GOVERNO FEDERAL ATRAVÉS DA COMISSÃO DA VERDADE, RECÉM CRIADA, ESTAR, COMO TUDO INDICA, PARTICIPANDO DO ACORDO EM EXIBIR A NOVELA "AMOR E REVOLUÇÃO" NO SBT (TRATA DE UM ACORDO FIRMADO COM O EMPRESÁRIO SILVIO SANTOS, VISANDO O SANEMANETO DO “BANCO PANAMERICANO” DO PRÓPRIO EMPRESÁRIO, ENVOLVIDO EM ESCÂNDALO NO SISTEMA FINANCEIRO NACIONA). SENDO ASSIM, O EFETIVO DA FORÇAS ARMADAS, TANTO DA ATIVA COMO INATIVOS E PENSIONISTAS, VÊM RESPEITOSAMENTE ATRAVÉS DESSE ABAIXO ASSINADO, COMO UM INSTRUMENTO DEMOCRÁTICO, SOLICITAR DO DIGNO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, REPRESENTADO ACIMA, PROVIDÊNCIAS EM DEFESA DA NORMALIDADE CONSTITUCIONAL, VISTA O CUMPRIMENTO DA LEI DE ANISTIA EXISTENTE, CONFORME JÁ DECIDIU O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. NESTES TERMOS PEDE DEFERIMENTO EM CARÁTER URGENTÍSSIMO.
Preencha os campos obrigatórios para apoiar esta manifestação e assine este abaixo-assinado. Um email com seus dados, dados do JOSÉ LUIZ DALLA VECCHIA (autor) e texto do abaixo-assinado será enviado para ANA PAULA MANTOVANI SIQUEIRA E PETERSON DE PAULA FERREIRA. Seu nome e email serão públicos, como sempre são em um abaixo-assinado.

O horror da diferença - Cacá Diegues



Como ele está morto e nunca em vida conversou com alguém sobre o assunto, jamais saberemos os motivos e as circunstâncias psíquicas que fizeram com que o rapaz entrasse na escola de Realengo e praticasse aquele massacre de crianças. Todos temos o direito de fazer suposições, mas jamais conheceremos a verdade, é inútil insistir.

Talvez nos reste apenas tirar das circunstâncias da tragédia algum ensinamento, seguindo umas poucas pistas a nosso dispor. A mais importante delas está certamente na carta deixada pelo assassino, um pouco subestimada pelo que andei lendo nos jornais.

Ali está, antes de tudo (ou “primeiramente”, como o autor a inicia), uma ostensiva divisão do mundo entre os “puros” e os “impuros”, não podendo estes nem ao menos tocar em seu corpo. Mais do que fazendo uma declaração religiosa fundamentalista, Wellington está assim se referindo à incompatibilidade entre ele e os outros, sendo estes os que não merecem viver no mesmo mundo que ele.

Talvez estivesse até dividido entre esse “eu” e “o outro”, sendo ele mesmo as duas coisas. Wellington atirou de preferência em meninas, como se estivesse eliminando preferencialmente o desejo que o tornava “impuro”. Ou seja, que o tornava “o outro”. Mas isso, mais uma vez, é apenas uma suposição.

Como também poderia estar se vingando do que outras crianças podem ter feito com ele no passado, nas mesmas salas de aula em que perseguiu suas vítimas. Alguns relatos dizem que Wellington teria sido alvo de bullying (será que o verbo “bolinar” é um anglicismo decorrente de “bullying” ou os dois vocábulos têm igual raiz latina?), quando estudou naquela mesma escola dos 11 aos 14 anos de idade e era conhecido como Sherman (referência ao nerd de “American Pie”) ou Suingue (por mancar de uma perna).

O que é evidente, a partir das poucas pistas deixadas, é que a tragédia na escola de Realengo está repleta, por todos os lados, de graves e clássicos sintomas de intolerância, uma incapacidade de suportar a diferença, um horror dela que nos impede de viver em paz com o outro.

Nesta mesma semana em que Wellington invadiu a escola atirando em crianças, uma menina chamada Adriele, de 16 anos, foi assassinada no interior de Mato Grosso do Sul por dois rapazes que não se conformavam com o romance dela com a irmã deles. Na semana anterior, Michael, da equipe do Vôlei Futuro, era objeto de brutal manifestação coletiva de homofobia, num ginásio de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, por ter-se declarado homossexual. Uma tradição de nosso esporte: há cerca de 10 anos, o jogador Lilico já tinha sido excluído da seleção brasileira de vôlei pela mesma razão.

Por esses mesmos dias, o deputado Jair Bolsonaro falava na televisão da “promiscuidade” que não permitia a seus filhos, a de se relacionar com uma mulher negra como Preta Gil. Assim como um pastor evangélico afirmava, em sua pregação religiosa, que os africanos eram fatalmente herdeiros de maldição lançada por Noé, em nome de Deus, logo depois do dilúvio.

Um pouco mais longe de nós, outro religioso, desta vez na Flórida, queimava em público um exemplar do Alcorão, o livro sagrado dos islamistas. O que provocou, em represália, o assassinato de dezenas de pessoas no Afeganistão, vítimas de homens-bomba.

Se o culpado for sempre o outro, se o mundo estiver dividido sempre entre os puros e os impuros, não evitaremos nunca novos Wellington, nem que toda a polícia do país passe a trabalhar exclusivamente na porta de nossas escolas. A resistência à diferença, o horror a ela, sempre foi causa ou pretexto de todos os genocídios na história da humanidade.

Às vezes, ela se disfarça sofisticadamente em ideologia ou visão de mundo, com teorias cheias de argumentos. Como no nazi-fascismo de Hitler, Mussolini, Pinochet e tantos outros; ou no comunismo de Stalin, Mao, Pol-Pot e tantos outros. Mas, no fundo, todas essas formas de autoritarismo que encharcaram o século XX de sangue partiram sempre da ideia de rejeição da diferença, por medo ou ignorância, por má ciência ou simples superstição.

Um certo cinema, sobretudo o norteamericano de ação, nos encheu e ainda nos enche a cabeça de estímulos a esse combate à diferença. As batalhas intergaláticas de humanos decentes contra alienígenas do mal apenas substituem a incompatibilidade clássica entre o branco civilizador e o indígena selvagem do Velho Oeste, sucedendo aos épicos de guerra contra os insensíveis amarelos do Sudeste da Ásia e os pérfidos árabes do Oriente Médio.

Nesse sentido, um filme como “E.T.”, de 1982, fez mais pela democracia americana do que muito discurso de liberais locais. No filme de Steven Spielberg, a amizade entre a menina interpretada por Drew Barrymore e o extraterrestre monstruoso, perseguidos pelas máscaras e tubos higienicamente brancos dos eugenistas comandados por Pete Coyote, era uma perfeita metáfora do que poderia ser o mundo sem o medo do outro.

Ninguém nasce racista ou homofóbico, ninguém nasce com preconceito algum. A educação que recebemos ao longo de nossos primeiros anos de vida é que nos torna assim ou assado. E isso é portanto uma responsabilidade de todos, da sociedade onde vivemos e no seio da qual seremos preparados para a vida.


Pesquei aqui. Sugestão de Jean Wyllys

Casar Homossexuais

A cada ano, mais e mais países têm aprovado o casamento entre homossexuais. No Brasil, o casamento civil ainda é sistematicamente confundido com o sacramento católico do matrimônio. Mas se para muitas religiões a homossexualidade ainda é pecado, para o Estado laico é o exercício do direito à livre orientação sexual e não pode ser pretexto para qualquer discriminação.


Por Tulio Viana

O divórcio só foi legalizado no Brasil em 1977. A depender de alguns religiosos da época, o casamento até hoje seria “até que a morte os separe”, pois “o que Deus uniu o homem não separa”. Os moralistas de plantão alegavam que o divórcio seria a degeneração da família e que, por costume, o casamento seria a “união indissolúvel entre o homem e a mulher”. Os filhos de casais separados eram invocados como as grandes vítimas da então nova lei mas, paradoxalmente, eram estigmatizados justamente por quem era contrário ao divórcio.

Passados 33 anos, o mundo não acabou, o Brasil não foi devastado pela ira divina e a emenda constitucional nº66 de julho de 2010 tornou possível o divórcio direto, sem a necessidade de uma prévia separação judicial. Ao contrário do que pregaram alguns profetas, o divórcio foi incorporado à legislação e ao cotidiano dos brasileiros sem maiores traumas.

A celeuma em relação ao casamento agora é outra: podem os homossexuais se casar? Os argumentos do debate continuam os mesmos: “a Bíblia não permite! Está lá no Levítico: 18-22!”, bradam os contrários; mas “o Estado é laico! Está lá na Constituição: 19-1!”, retrucam os defensores.

Do ponto de vista estritamente jurídico, o casamento civil é um contrato entre duas pessoas que deve ser firmado com base no princípio da autonomia da vontade. Se as partes são maiores e capazes, e há um efetivo consenso entre elas, o Direito deveria simplesmente respeitar suas vontades, sem impor qualquer tipo de limitação. Assim, não haveria qualquer óbice ao casamento de pessoas do mesmo sexo.

O casamento civil brasileiro, porém, desde sua criação, vem sendo reiteradamente confundido com o sacramento católico do matrimônio que lhe deu origem. Com a proclamação da República e o advento do Estado laico, uma das consequências imediatas foi a criação do casamento civil, pelo decreto 181/1890. Na prática, porém, o casamento civil emulava o matrimônio religioso e mantinha suas principais características: patriarcal, indissolúvel, monogâmico e heterossexual.

Aleluia e o preconceito contra Lula



Artigo de Mauro Santayana, intitulado "De olhos opacos no turbilhão do mundo", publicado em seu blog: 

O engenheiro baiano José Carlos Aleluia enviou carta ao Reitor da Universidade de Coimbra, protestando contra a concessão do título de Doutor Honoris-Causa ao operário Luis Inácio da Silva, que, com o apelido afetivo de Lula, presidiu ao Brasil durante oito anos. Sem mandato, Aleluia mantém contatos com seus eleitores, mediante um site na Internet.

Ele foi um oposicionista inquieto, ocupando, sempre que podia, a tribuna, no ataque ao governo passado, dentro da linha sem rumo e sem prumo do DEM. Aleluia considera uma ofensa às instituições acadêmicas o título concedido a Lula, e faz referência elogiosa à mesma homenagem prestada ao professor Miguel Reale. Esqueceu-se, é certo, de outros brasileiros honrados pela vetusta universidade, como Tancredo Neves. Não é preciso conhecer a teoria de Freud para compreender a escolha da memória de Aleluia.

O título universitário é, hoje, licença profissional corporativa. O senhor Aleluia está diplomado para exercer o ofício de engenheiro. A Universidade o preparou para entender das ciências físicas, e é provável que ele seja profissional competente, tanto é assim que ministra aulas. O título universitário certifica que o graduado estudou tal ou qual matéria, mas não faz dele um sábio. O conhecimento adquirido na universidade é importante, mas não é tudo. 

Volto a citar, porque a idéia deve ser repetida, os versos de um escritor mais identificado com a direita do que com a esquerda, T.S. Elliot, nos quais ele mostra a diferença entre ser informado, conhecer e saber: Where is the wisdom we have lost in knowledge? Where is the knowledge we have lost in information?

O título de Doutor Honoris-Causa, sabe bem disso o engenheiro Aleluia, não é licença profissional, mas o reconhecimento de um saber, construído ao longo do tempo, tenha o agraciado ou não freqüentado a universidade. O papel da Universidade não deveria ser o que vem desempenhando – o de conferir certificados de preparação técnica -, mas o de abrir caminho à busca do saber. O Senador Christovam Buarque, com a autoridade de quem foi reitor da UNB, disse certa vez que a Universidade ideal será aquela que não expeça diplomas.

Lula, com os seus defeitos, e não são poucos, é um doutor em política. Um chefe de Estado não administra cifras, não faz cálculos estruturais, não prolata sentenças, nem deve escrever seus próprios discursos. Cabe-lhe liderar os povos e conduzir os estados, e isso dele exige muito mais do que qualquer formação escolar: exige a sabedoria que desconfia do conhecimento, e o conhecimento que se esquiva das informações não confiáveis.

A universidade é uma instituição relativamente nova na História. Ela não foi necessária para que os homens, com Demócrito, intuíssem a física atômica; com Pitágoras e Euclides, riscassem no solo figuras geométricas e delas abstraíssem os teoremas matemáticos; e muito menos para que Fídias fosse o genial arquiteto e engenheiro das obras da Acrópole e o escultor que foi. Mais ainda: as maiores revoluções intelectuais e sociais do mundo não dependeram das universidades, embora nelas se tenham formado grandes pensadores – e sua importância, como centro de reflexões e pesquisas, seja insubstituível. O preconceito de classe contra Lula sela os olhos de Aleluia e os torna opacos.

Solidário o meu autodidatismo com o de Lula, quero lembrar o grande escritor norte-americano Ralph Waldo Emerson: um talento pode formar-se na obscuridade, mas um caráter só se forma no turbilhão do mundo.

É no turbilhão do mundo que se forma o caráter dos grandes homens.


Fonte: Blog do Miro